Cataratas de Monet

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Monet teve vida longa. Nasceu em 1840 e faleceu em 1926, com 86 anos. Em 1908, com 68 anos e já um pintor renomado, os artigos da época documentavam a extrema insatisfação com sua visão que vinha se deteriorando assim como os rompantes de angustia que o levava a destruir suas telas. O motivo: catarata em ambos olhos.

A catarata faz parte do processo natural de envelhecimento, quando o cristalino vai deixando de ser transparente, se tornando opaco e gerando uma visão cada vez mais borrada e amarelada (veja pinturas acima: 1902 antes da catarata e 1920-22 já com catarata avançada). No caso de Monet, essa opacificação pode ter sido acelerada pelo fato de que passou a vida pintando ao ar livre e portanto se expondo mais do que o normal aos raios ultra-violeta que aceleram o processo de envelhecimento do cristalino. Além disso, Monet era fumante, fator de risco para o desenvolvimento de catarata nuclear, exatamente a catarata que adquiriu. Mas catarata já tinha cura naquela época: a cirurgia de remoção com posterior uso de óculos do tipo Mr. Magoo para compensar a ausência do cristalino então retirado. A catarata dificulta a passagem dos azuis gerando uma visão bastante amarelada do mundo e, após a cirurgia, o mundo deixa de ser amarelado e passa a ser mais azulado e aos poucos o pós-operado vai se adaptando e o mundo volta a ser como antes da catarata, nem muito amarelado e nem muito azulado. Mas é preciso ter paciência e muito mais paciência nos tempos de Monet.

Bastante dependente da visão e das cores, muito inseguro e extremamente ansioso, Monet tinha muito medo de cirurgia. E para aumentar seu medo, sua amiga Mary Cassat, também artista plástica, parou de pintar após a cirurgia de catarata. Apesar de seus constantes pesadelos, ele acabou se rendendo à cirurgia quando ficou praticamente cego e impossibilitado de trabalhar. Finalmente, com 83 anos e depois de viver aproximadamente 15 anos (1908-1923) com catarata nuclear bilateral que piorava com o passar dos anos, o oftalmologista Coutela realizou em janeiro de 1923 dois procedimentos (normal para aquela época) para a remoção de sua catarata (no olho direito).

Infelizmente os pesadelos não acabaram após a cirurgia. A ansiedade de Monet dificultava muito sua recuperação. Junto a isso, a parte posterior do cristalino (que normalmente não é removida em cirurgia) se tornou rapidamente opaca bloqueando a visão de Monet e em menos de 6 meses após o primeiro procedimento, ele teve que enfrentar um terceiro procedimento cirúrgico que lhe causou ainda mais angustia e sofrimento. Hoje, a parte posterior continua não sendo retirada e quando se torna opaca não é preciso outra cirugia mas sim uma aplicação de laser para retirar a opacidade. Na cirurgia de Monet, realizada em sua própria casa, foi feita uma abertura para retirar essa parte opaca que impedia Monet de se dedicar exclusivamente a adaptação da nova visão depois da remoção da catarata.

Monet não ficou satisfeito, não se ajustava aos óculos e continuava extremamente deprimido. Naquela época, era preciso muita paciência e tempo para recuperar a visão, mas Monet além de ansioso tinha idade avançada e se preocupava em não ter tempo suficiente para entregar suas telas prometidas ao L’Orangerie. Um ano após o terceiro procedimento, Monet continuava dizendo que era preferível ser cego. Mesmo insatisfeito, tentou trabalhar na série Water Lilies com os óculos Mr. Magoo que tinham lentes bem grossas para o olho operado e lentes bem opacas que bloqueavam o pouco de visão borrada que lhe restava no olho com catarata e que ainda não tinha sido operado (o olho esquerdo, que nunca foi operado). Nessa época, Monet começou a ser visitado por outro oftalmologista, Mawas. Depois de um ano testando lentes de diversas cores e dois anos após sua ultima cirurgia, Monet acabou se adaptando e optou por óculos sem filtros coloridos.

Em julho de 1925, Monet então sentiu que finalmente havia recuperado sua verdadeira visão e trabalhou vigorosamente para terminar os 19 painéis que havia prometido para serem instalados no futuro L’Orangerie que estava sendo construído especialmente para elas. Monet entregou não apenas 19 painéis mas sim um total de 22, mas infelizmente faleceu antes de poder visitar sua obra instalada. Foi seu amigo Clemenceau, que esteve sempre ao seu lado, quem fechou seus olhos assim que deixou esse mundo, mas foi também Clemenceau que dois meses depois ajudou o mundo a ver melhor através dos olhos de Monet com a abertura do Musee de L’Orangerie (Werner, 1998).

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Acredita-se que a obra da esquerda – bastante amarelada – tenha sido realizada antes da cirurgia de catarata no olho direito ou após a cirugia mas apenas com o olho esquerdo que permaneceu com catarata e, a obra da direita tenha sido realizada apenas com o olho direito e após a cirurgia de remoção da catarata, gerando uma pintura bastante azulada que contrasta com o mundo amarelado da catarata.

Referências:

Capitulo Aging through the Eyes of Monet escrito por John S. Werner no livro Color Vision Perspectives from Different Disciplines (1998 ) Walter de Gruyter & Co., Berlin-NewYork.

Capitulo Cataracts, Surgery, and Color: The Case of Monet no livro The Artist’s Eyes (2009) Abrams, New York, escrito por Michael F. Marmor e James G. Ravin.

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