Category Archives: Cor

A Ciência por trás do #TheDress

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#TheDress #WhiteandGod #BlackandBlue

A percepção de cores é relativa assim como a percepção humana em geral e fica fácil entender isso se usarmos preço como exemplo. O vestido em questão custa 77 dólares. Isso é caro ou barato? Depende. É irrisório para uma atriz de Hollywood, mas caro para uma mendiga em qualquer lugar do Brasil.

E o que o preço tem a ver com a cor? Da mesma forma que caro e barato depende da conta bancária de cada um, a cor do vestido também depende de como o cérebro de cada um funciona. No caso do #TheDress, as pessoas se dividem em duas categorias, dourado-e-branco ou azul-e-preto. A cor do vestido original é azul-e-preto, mas o que interessa é a foto que gerou um vestido muito diferente (ilustração acima) e os observadores se dividem entre azul-e-preto ou dourado-e-branco. Quem tem razão? Todo mundo.

dress color

Nosso cérebro vem equipado com um mecanismo que se chama constância perceptual. Para que serve isso? Para trazer um pouco de estabilidade para nossas vidas já tão conturbadas. No caso específico da cor, a constância é um mecanismo que está o tempo todo descontando as mudanças na iluminação para que a cor dos objetos se mantenha estável. Sem a constância de cor perceberíamos os objetos mudando constantemente de cor porque a luz emitida pelos mesmos – de fato – muda de acordo com a mudança na iluminação, seja natural ou artificial. Em outras palavras, não vemos diferenças onde elas existem e, portanto, “não vemos o mundo como ele é, mas sim como pode nos ser útil” como afirma Beau Lotto.

Alguns cérebros assumem que a iluminação é amarela e descontam essa iluminação percebendo o vestido azul-e-preto e outros assumem que a iluminação é azul e descontam essa iluminação percebendo o vestido dourado-e-branco. A simulação abaixo é a que melhor ilustra a diferença entre aquele que desconta a iluminação azul (esquerda) e aquele que desconta a iluminação amarela (direita).

Decodificando o desconto da iluminação! https://xkcd.com/1492/

Decodificando o desconto da iluminação! https://xkcd.com/1492/

Se a tarefa fosse decidir entre uma iluminação azul ou verde o vestido não tinha virado sucesso. Azul e verde não são cores oponentes e as diferenças teriam passado desapercebidas. Descontar a iluminação azul gera uma percepção onde predomina amarelo e descontar o verde gera uma percepção onde predomina o vermelho. Amarelo e vermelho são duas cores diferentes mas entre uma e outra existe uma infinidade de amarelos-avermelhados, amarelos-alaranjados, laranjas-avermelhados, entre muitas outras descrições similares que já estamos acostumados e não causaria nenhuma polêmica.

No caso do azul e do amarelo, que são cores oponentes, quando o cérebro assume um ou outro o resultado perceptivo difere completamente. Descontar a iluminação azul gera uma percepção onde predomina amarelo e logo as pessoas percebem dourado-e-branco enquanto descontar o amarelo gera uma percepção onde predomina o azul e as pessoas percebem azul-e-preto. Entre o azul e o amarelo não existe nenhum intermediário porque não existem azuis-amarelados ou amarelos-azulados e, portanto, nomeamos de amarelo ou dourado ou qualquer outro nome que não contenha azul ou, então, nomeamos de azul ou qualquer outro nome que não contenha nada de amarelo e é aí que reside a diferença gritante.

Human Color Space

Human Color Space

O que faz uma pessoa ver dourado-e-branco e uma outra pessoa ver azul-e-preto? Na minha pesquisa, 50% percebem dourado-e-branco e 50% percebem azul-e-preto. Se esse resultado for confirmado, a escolha entre ver dourado-e-branco ou ver azul-e-preto pode ser mero resultado do acaso orquestrando nossos cérebros assim como tirar cara ou coroa é também uma obra do acaso. Se minha amostra não for confirmada, a resposta mora em algum outro lugar e Drummond estava certo porque “cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua myopia”. Nesse caso, uma pesquisa mais adiante poderia nos ajudar a entender o que difere os que veem dourado-e-branco dos que veem azul-e-preto, mas de uma forma ou de outra, está todo mundo com a razão porque nossas mentes foram projetadas para ver um pouco mas não muito e isso varia de cérebro para cérebro.

A cor é muitas vezes pensada como uma qualidade do objeto ou da luz, mas isso não é verdade. A cor é um fenômeno mental determinado por processos neuronais e a luz é apenas o início desse processo que termina com a percepção de uma ou mais cores. A experiência do azul-e-preto ou do dourado-e-branco, assim como todas as outras cores, é uma construção mental.

A versão longa desse artigo pode ser lida em A Polemica do Vestido ensina: Nós vemos o que pensamos!

Claudia Feitosa-Santana é neuroscientista e especialista em percepção de cores com mestrado em psicologia experimental e doutorado em neurociências e comportamento pela Universidade de São Paulo, e pós-doutoramento em neurociências integradas pela Universidade de Chicago. Mora em Chicago e é atualmente professora da The School of The Art Institute of Chicago e da Roosevelt University.

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A Polemica do Vestido ensina: Nós vemos o que pensamos!

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Caso prefira uma versão resumida, leia A Ciência por trás do #TheDress

A cor do vestido virou viral. Todos alvoroçados e discutindo se o vestido é dourado-e-branco ou azul-e-preto. Caitlin McNeil, a dona do vestido e da foto que originou a discussão, já revelou que o vestido é azul-e-preto, mas a discussão não para porque agora as pessoas querem entender porque o mundo se divide em praticamente dourado-e-branco e azul-e-preto. A resposta é simples. Nós vemos o que pensamos. Mas para entender essa frase é preciso entender pelo menos um pouco como a mente humana funciona.

dress color

A cor é muitas vezes pensada como uma qualidade do objeto ou da luz, mas isso não é verdade. Por exemplo, a expressão “o oceano é azul” utiliza a percepção da cor azul para descrever a luz física. A cor em si não está no oceano e nem na luz emitida do mesmo. A cor é um fenômeno mental determinado por processos neuronais e a luz é apenas o início desse longo (mas rápido) processo que termina com a percepção de uma ou mais cores. Um comprimento de onda próximo de 470 nm é geralmente – mas não sempre – percebido como azul e nenhum comprimento de onda (luz) é dotada de uma cor. Não existe uma relação direta entre o comprimento de onda e a percepção de cor. A experiência do azul, bem como todas as outras cores, é uma construção mental.

A experiência de uma cor é como a compreensão de uma língua. Não há sentido no som físico de uma frase em japonês se a pessoa não aprendeu a língua assim como não há nenhum azul num comprimentos de onda próximo de 470 nm. O cérebro precisa interpretar o som físico assim como o comprimento de onda.

Esse conhecimento é antigo mas ainda pouco ensinado nas escolas em geral. Isaac Newton brilhantemente escreveu em seu livro Opticks publicado pela primeira vez em 1704: “E se em algum momento eu falo de luz e raios como coloridos ou dotados de cores, gostaria de ser entendido como não falando filosoficamente e corretamente, mas grosseiramente – tais concepções seriam apenas atribuídas por pessoas leigas ao observar esses experimentos. Para falar corretamente, os raios não são coloridos. Neles não há nada além de um certo poder e disposição para gerar a sensação desta ou daquela cor”.  Mais de 200 anos depois, W. D. Wright foi inspirado pelas palavras de Newton e publicou um livro chamado “Os raios não são coloridos”, em 1967, afirmando que “a percepção de cores está dentro de nós e as cores não podem existir a menos que haja um observador para percebê-las. A cor não existe nem mesmo na cadeia de eventos entre os receptores da retina e o córtex visual, mas apenas quando a informação é finalmente interpretada na consciência do observador”.

A percepção humana é relativa assim como a percepção de cores também. Mas fica mais fácil entender esse conceito de relatividade se usarmos preço como exemplo. O vestido em questão custa 77 dólares. Isso é caro ou barato? Depende. É irrisório para qualquer celebridade presente numa cerimonia do Oscar mas caro para uma mulher de rua, seja em Nova York ou São Paulo.  Se considerarmos que o dólar agora custa praticamente 3 reais, esse vestido é mais caro para uma mendiga em São Paulo do que para uma indigente em Nova York.

#TheDress #WhiteandGod #BlackandBlue

#TheDress #WhiteandGod #BlackandBlue

E o que o preço tem a ver com a cor? Da mesma forma que caro e barato é um julgamento que depende da conta bancária de cada um, a cor do vestido também depende de como o cérebro de cada observador funciona e, no caso específico do vestido, as pessoas se dividem em duas categorias, dourado-e-branco ou azul-e-preto. A cor do vestido como já sabemos é azul-e-preto, mas a foto gerou um vestido diferente (veja ilustração acima) que pela maior parte dos observadores será percebido ou como azul-e-preto ou como dourado-e-branco. Quem tem razão? Todo mundo.

A forma que eu encontrei para explicar por que todo mundo tem razão é aplicando o conhecimento que tenho para entender a polêmica do vestido.

Sou neurocientista e especialista em percepção de cores, e acordei na sexta-feira com vários e-mails e mensagens sobre o vestido. Achei extremamente curioso e fui checar a tal foto e logo conclui que estavam todos vendo a mesma foto em diferentes telas e diferentes telas produzem a emissão de diferentes luzes que, por sua vez, influenciam na percepção do observador. No entanto, uma amiga não aceitou minha explicação e foi categórica ao afirmar que a diferença de cor era gritante e mesmo quando as pessoas observavam a mesma tela elas se dividiam entre dourado-e-branco e azul-e-preto.

#thedress #whiteandgold #blackandblue

Eu ainda não estava convencida, mas me vi apenas com uma opção, a de testar com o meu próprio celular. Aproveitei que ia correr no South Side YMCA e testei a foto (acima) em 24 pessoas: 12 percebiam dourado-e-branco e 12 percebiam azul-e-preto. Na mesma hora, e do outro lado da cidade, uma aluna testou seus 29 colegas de trabalho: 11 percebiam dourado-e-branco e 18 percebiam azul-e-preto. Vou pular a explicação estatística e dizer apenas que a proporção entre dourado-e-branco e azul-e-preto só pode ser seguramente definida depois de rigorosamente testada, mas o que importa é que a foto é realmente polêmica e as pessoas se dividem entre dourado-e-branco e azul-e-preto. Em geral, as diferenças de percepção de cores ocorrem com frequência mas são sutis e por isso não prestamos atenção. No caso da foto é gritante – como enfatizou minha amiga, virou viral e, só se fala disso.

Nosso cérebro vem equipado com um mecanismo que se chama constância perceptual e que traz um pouco de estabilidade para nossas vidas já tão conturbadas. Tanto a constância de cor quanto a constância de tamanho ou de forma, entre outras, visa amenizar a instabilidade perceptual do nosso cotidiano. No caso do tamanho, se uma pessoa está muito perto de você, a imagem dela projetada na sua retina é diferente da imagem projetada quando ela está longe de você, mas seu cérebro não tem nenhum problema em entender que é mesma pessoa e com o mesmo tamanha, nem maior e nem menor.

No caso especifico da cor, esse mecanismo está o tempo todo compensando as mudanças na iluminação para que a aparência de cor dos objetos se mantenha estável. Sem a constância de cor perceberíamos os objetos mudando constantemente de cor porque a luz emitida pelos mesmos de fato muda de acordo com a mudança na iluminação, seja natural ou artificial. Em outras palavras, não vemos diferenças onde elas existem e, portanto, “não vemos o mundo como ele é, mas sim como pode nos ser útil” como afirma Beau Lotto.

O primeiro relato de que se tem conhecimento sobre a constância de cor é de 1694, feito por Philippe De La Hire que afirmou o fato de não percebermos que as cores são diferentes sob a luz do dia ou sob a luz de velas. Mas foi uma semana antes da revolução francesa (1789) que Gaspard Monge fez uma demonstração brilhante a respeito da constância de cor,  chamando a atenção da Academia Real de Ciências de Paris para o fenômeno. Monge, vestindo uma malha vermelha, pediu a seus colegas que a observassem através de uma lente vermelha. Surpresos, os presentes tiveram a sensação de que a malha tinha um vermelho muito esbranquiçado, praticamente branco.

Alguns cérebros assumem que a iluminação é amarela e descontam essa iluminação percebendo o vestido azul-e-preto e outros assumem que a iluminação é azul e descontam essa iluminação percebendo o vestido dourado-e-branco. A simulação abaixo é a que melhor ilustra a diferença entre aquele que desconta a iluminação azul (esquerda) e aquele que desconta a iluminação amarela (direita).

Decodificando o desconto da iluminação! https://xkcd.com/1492/

Decodificando o desconto da iluminação! https://xkcd.com/1492/

Se você não nasceu na era digital e tirava fotos, já teve que escolher entre os filmes Kodak e Fuji. As câmeras analógicas não vinham equipadas como o nosso cérebro e não eram capazes de descontar a iluminação do ambiente. O que chamamos de constância de cor para a percepção, chamamos de white-balance para a fotografia e o cinema. Naquela época as pessoas tinham duas opções, para fotos com tons mais quentes o filme Kodak e para fotos com tons mais frios o filme Fuji.

Left: Kodak and Right: Fuji  https://benhorne.wordpress.com/

Left: Kodak and Right: Fuji
https://benhorne.wordpress.com/

Mas então, porque o mundo parou para aprender esse mecanismo somente agora? A constância de cor faz com que não percebamos diferenças onde elas existem e, de fato, o mundo somente parou porque a diferença é brutal, mas para entender essa diferença é preciso entender como construímos as relações entre cores (espaço de cores) dentro do nosso cérebro.

Nossa percepção de cores é baseada em dois canais cromáticos que trabalham em oposição, o azul-e-amarelo e o verde-e-vermelho. E o que significa isso? Como o azul é oposto ao amarelo, eles não coexistem e por isso não podemos perceber um azul-amarelado ou amarelo-azulado e o mesmo vale para o verde e o vermelho. Vale ressaltar que nosso visão é baseada em cores-luzes e não cores-pigmento e não dá para entender essa questão pensando em como fazemos cores com tinta, mas isso é um outro assunto (pp. 38 desse artigo).

O vestido original emite luzes que geralmente faz com que percebamos o mesmo em azul-e-preto, mas a foto do vestido saiu bem diferente. A análise da foto nos informa que o vestido deveria ser percebido como dourado-e-azul mas essa imagem é instável e carregada de luzes, impondo ao cérebro uma tarefa árdua, a de decidir em fração de segundos qual é a cor predominante da iluminação para fazer o desconto e gerar a percepção de cores e, nessa foto, temos duas opções, descontar uma iluminação azul ou descontar uma iluminação amarela.

Human Color Space

Human Color Space

Se a tarefa fosse decidir entre uma iluminação azul ou verde o vestido não tinha virado sucesso. Azul e verde não são oponentes e as diferenças perceptivas teriam passado desapercebidas. Descontar a iluminação azul gera uma percepção onde predomina amarelo e descontar o verde gera uma percepção onde predomina o vermelho. Amarelo e vermelho são duas cores diferentes mas entre uma e outra existe uma infinidade de amarelos-avermelhados, amarelos-alaranjados, laranjas-avermelhados, entre muitas outras descrições similares que já estamos acostumados e não causaria nenhuma polêmica. No caso do azul e do amarelo, que são oponentes, quando o cérebro assume um ou outro o resultado perceptivo difere completamente. Descontar a iluminação azul gera uma percepção onde predomina amarelo e logo as pessoas percebem dourado enquanto descontar o amarelo gera uma percepção onde predomina o azul. Entre o azul e o amarelo não existe nenhum intermediário cromático, ou seja, nomeamos de amarelo ou azul e aí reside a explicação da diferença gritante.

Há pouco mais de 100 anos, Ewald Hering propôs que a experiência da cor resulta da análise das cores em pares opostos. O verde opondo-se ao vermelho. O azul opondo-se ao amarelo. Assim, explicou o porquê de não sermos capazes de ver verdes-avermelhados ou azuis-amarelados e também utilizou exemplos de pós-imagens que podemos perceber depois de fixar o olhar por aproximadamente 30 segundos em uma mesma imagem, vide o arco-íris abaixo. Mais tarde, adicionou aos canais verde-vermelho e azul-amarelo, o canal branco-preto.

Arco-Íris: Fixe o olhar na bolinha preta por 30 segundos e depois olhe para o fundo branco.

Arco-Íris: Fixe o olhar na bolinha preta por 30 segundos e depois olhe para o fundo branco.

Além dos canais cromáticos, possuímos um terceiro canal, o preto-e-branco, mas diferente dos canais de cores, entre o branco e o preto existem muitos tons de cinza. Assim como olhar a malha vermelha com um filtro vermelho nos faz perceber a mesma praticamente branca, descontar a iluminação azul nos faz perceber o azul da foto como branco enquanto descontar a iluminação amarela faz com que percebamos o dourado da foto como preto.

O que faz uma pessoa ver dourado-e-branco e uma outra pessoa ver azul-e-preto? Se minha pequena amostra de que 50% percebe dourado-e-branco e 50% percebe azul-e-preto for confirmada, temos que considerar a possibilidade da escolha ser mero resultado do acaso orquestrando nossos cérebros assim como tirar cara ou coroa é também uma obra do acaso. Se minha amostra não for confirmada, a resposta mora em algum outro lugar. Nesse caso, uma pesquisa mais adiante poderia nos ajudar a entender o que difere os que veem dourado-e-branco dos que veem azul-e-preto, mas de uma forma ou de outra, está todo mundo com a razão porque nossas mentes foram projetadas para ver um pouco mas não muito e isso varia de cérebro para cérebro e Drummond estava certo porque “cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua myopia”.

Versão resumida desse artigo em A Ciência por trás do #TheDress

Claudia Feitosa-Santana é neuroscientista e especialista em percepção de cores com mestrado em psicologia experimental e doutorado em neurociências e comportamento pela Universidade de São Paulo, e pós-doutoramento em neurociências integradas pela Universidade de Chicago. Mora em Chicago e é atualmente professora da The School of The Art Institute of Chicago e da Roosevelt University.

 

Museum of Science and Industry, Chicago: Crítica

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Chicago Museum of Science presents a Wrong Color Definition

Chicago Museum of Science and Industry – Erro ao definir a Cor de um objeto

De acordo com o Museu de Ciência e Indústria de Chicago, “a cor de um objeto é determinada pela absorção específica e reflexão dos comprimentos de onda”, mas isso não é verdade. Esta definição errônea é apresentada no “Color Booth” que faz parte da Exposição “Science Storms”.  Aqui estão algumas explicações sobre o porquê da cor não ser exclusivamente determinada pelos comprimentos de onda específicos que um objeto absorve e reflete:

“Muitas pessoas acreditam que a cor é uma propriedade essencial dos objetos e que depende inteiramente dos comprimentos de onda específicos da luz refletida. Mas essa crença é equivocada. A cor é uma sensação criada no cérebro. Se as cores que percebemos dependessem apenas do comprimento de onda refletido, a cor de um objeto mudaria drasticamente de acordo com variações de iluminação e sombra que ocorressem constantemente durante todo o tempo. Muito pelo contrário, a cor de um objeto nos parece relativamente estável devido a nossa atividade neural – apesar das mudanças constantes no ambiente ” por John Werner, Ph.D.: UC Davis, Center for Neuroscience.

“A cor de uma luz isolada está intimamente relacionada com as propriedades físicas da luz, mas este fato é bastante enganoso para a compreender a cor em condições normais. A cor não está na luz. O que vemos depende diretamente de um padrão de respostas neurais e, o comprimento de onda ou da energia de luz que entra no olho é apenas um fator dentre muitos outros. A relação direta entre um estímulo físico e como nós o percebemos se quebra quando a luz é parte de uma cena complexa. Na visão em condições normais, a resposta neural a uma luz particular e, portanto, a nossa percepção dela, é influenciada pelo contexto das outras luzes presentes na mesma cena” por Steve Shevell, Ph.D.: University of Chicago, Institute of Mind and Biology.

“A cor é muitas vezes pensada como uma qualidade da luz, mas isso não é verdade. Por exemplo, a expressão “o oceano é azul” utiliza uma experiência de percepção da cor azul para descrever a luz física. A cor em si não está na luz. A cor é um fenômeno perceptivo determinado por processos neuronais. A região do espectro electromagnético que é visível para os seres humanos gira em torno de 400 nm a 700 nm, comprimento de onda, mas este não está dotado com uma cor. Um determinado comprimento de onda, por exemplo próximo de 470 nm ou 580 nm, são percebidos como azul ou amarelo, respectivamente, porque estes comprimentos de onda estimulam os fotorreceptores no olho humano que são responsáveis ​​pela transdução da luz física em respostas neurais, ou seja, impulsos elétricos. Essas respostas neurais passam por uma série de etapas de processamento no cérebro. A experiência do azul ou do amarelo, bem como todas as outras cores, é uma construção mental. A experiência de uma cor é como a compreensão da linguagem. Não há sentido no som físico de uma frase em japonês (o cérebro deve interpretá-lo) se a pessoa não aprendeu a língua assim como não há nenhum azul ou amarelo nos comprimentos de onda. A cor é uma percepção que os seres humanos são capazes de experimentar por meio de processos neurais sensoriais ” por Claudia Feitosa-Santana, Ph.D.: Roosevelt University, Departamento de Psicologia.

Esse conhecimento é muito antigo:

Isaac Newton (1642, 1727) brilhantemente escreveu em seu livro “Opticks“, publicado pela primeira vez em 1704: “E se em algum momento eu falo de luz e raios como coloridos ou dotados de cores, gostaria de ser entendido como não falando filosoficamente e corretamente, mas grosseiramente – tais concepções seriam apenas atribuídas por pessoas leigas ao observar esses experimentos. Para falar corretamente, os raios não são coloridos. Neles não há nada além de um certo poder e disposição para gerar a sensação desta ou daquela cor. ”

Mais de 200 anos depois, W. D. Wright foi inspirado pelas palavras de Newton e publicou um livro chamado “Os raios não são coloridos”, em 1967, afirmando que “a nossa percepção de cores está dentro de nós e as cores não podem existir a menos que haja um observador para percebê-las. A cor não existe nem mesmo na cadeia de eventos entre os receptores da retina e o córtex visual, mas apenas quando a informação é finalmente interpretada na consciência do observador. “- Por W. D. Wright, do Imperial College of Science and Technology, London

First published by Adam Hilger LTD, London - 1967

Primeira edição da Adam Hilger LTD, Londres – 1967

Portanto, se você for ao “Museum of Science and Industry” ansioso para que seus filhos aprendam ciência, é melhor reduzir bastante suas expectativas. Pode ser divertido, mas não educativo. Na maioria das vezes, você não vai encontrar um empregado ou um voluntário para responder a uma pergunta científica e, se você encontrá-los, isso não significa que eles vão lhe dar a resposta correta.

Seus uniformes nos enganam. Eles têm dois tipos: os funcionários que 99% não são cientistas mas usam um uniforme que diz “Scientist”; os voluntários usam um uniforme que diz “Volunteer” e, a maior parte deles são aposentados de diversas áreas não relacionadas à ciência, mas a chance de encontrar um estudante de ciências entre eles, mesmo que pequena, ainda é maior que entre os funcionários.

Mais alarmante e muito mais assustador é o fato de que eles oferecem uma “Oficina de Professores” e um “Centro para o Avanço das Ciências na Educação”. De acordo com suas próprias palavras, a “Oficina de Professores é projetada para aumentar o seu conhecimento em ciência, melhorar o ensino, a habilidade de ensinar e, demonstrar como usar os programas e exposições do museu para melhorar o currículo de ciências.” Esse centro oferece uma enorme lista de atividades como excursões, currículo de ciências para crianças, laboratório de aprendizagem, etc. Seria fantástico se o museu estivesse levando ciências a sério, mas não é definitivamente o caso.

OBS: Antes de escrever esse comentário, eu entrei em contato com o museu solicitando que o painel deveria ser corrigido. A resposta foi não e a explicação foi, mais uma vez, uma prova de que o “Museum of Science and Industry”, também chamado MSI Chicago, não tem um número mínimo suficiente de cientistas e/ou nenhum respeito pela ciência. Lamentável.

Color is in the Brain

Perceptual Constancy and Audrey Heller’s Photography

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Perceptual constancy is an important aspect of our interaction with the world. The size constancy is the easiest one to understand. For example, two telephone poles look the same size when the first is viewed from 100 meters and when the second is viewed from 1 meter, even though the visual angle is very different. A person who appears to be 6 feet tall when he is nearby also appears to be 6 feet tall when he is standing across the room. Now, think of a penny… and you will understand the shape constancy in which the penny looks round both when viewed head on and when viewed from an acute angle. The color constancy is a little more difficult to grasp… think of the color of your car, for example… if you don’t have one, think of the one you are always taking a ride… you always perceive the color of the car as uniform, even under different light sources (sunlight, artificial light, shade). These are few examples of perceptual constancy that are essential to make our lives more stable, letting us freer to worry about other types of non-constancies (Goldstein, 2011; Cohen, forthcoming).

Here are some photos by Audrey Heller that plays with the phenomenon of size constancy:

[A Lenda dos Muitos Brancos dos Inuits – Esquimós]

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As pessoas em geral adoram aumentar os fatos num telefone sem fio – sem fim, e foi assim que começou a lenda de que os esquimós são capazes de perceber e/ou nomear muito mais brancos ou tipos de neve que a gente. Mesmo que a lenda já tenha sido destruída há décadas, algumas pessoas ainda acreditam!

A antropóloga Laura Martin passou um bom tempo na década de 1980 tentando desfazer a lenda sobre os esquimós (Inuits) e, após anos de luta, ela conseguiu publicar “Eskimos Words for Snow” (Martin, 1986). Este artigo deveria ter sido suficiente para a lenda sair de nossas vidas, mas não, e mais tarde Martin chegou a citar o número de termos do vocabulário esquimó para neve: “nove” em uma enciclopédia (Adams 1984), “cem” no editorial do New York Times (9 de fevereiro de 1984), e “200” em um programa sobre a previsão de tempo em um canal de TV em Cleveland (Pullum, 1989).

Todo mundo sabe que decoradores têm nomes diferentes para diferentes gradações de bege, e cabeleireiros têm nomes diferentes para diferentes gradações de loiro, marrom e preto – nada mais justo. Mas de acordo com o linguista Geoffrey K. Pullum – que trabalhou muito duro para destruir a lenda dos esquimós em The Great Eskimo Vocabulary Hoax, eles não são tão interessados em neve quanto reza a lenda. Para eles, a neve é algo sempre presente assim como a areia na praia. E até mesmo os loucos por praia tem apenas uma palavra para a areia.

Em 1911, o lingüista Franz Boas comparou os termos em inglês para água com os termos dos esquimós para a neve, afirmando que no vocabulário dos Inuits encontram-se 4 categorias de neve. Recentemente, em 2003, Larry Kaplan afirmou um pouco mais em “Inuit Snow Terms“. Mas para Pullum e Martin, temos que estar cientes de que o Dicionário da Língua da Gronelândia Ocidental Eskimo (Schultz-Lorentzen, 1927) apresenta apenas duas raízes possivelmente relevantes para a tipos de neve no vocabulário esquimó: qanik para neve no ar (floco de neve), e aput – para neve no chão. Todos os outros nomes são derivados. Isso é tudo.

Resumindo: a percepção em geral e, mais ainda a percepção de cores dos esquimós, é tal e qual a nossa. O vocabulário é um pouco diferente, mas muito longe de possuir dezenas e, muito menos, centenas de termos para descrever os diversos estados da neve.

The Great Eskimo Vocabulary Hoax

The Great Eskimo Vocabulary Hoax