Category Archives: Neurociencias

O que a neurociência tem a dizer sobre a Procrastinação!

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O que a neurociência tem a dizer sobre a procrastinação? O ato de deixar para depois algo que pode ser feito agora? A procrastinação nos acompanha há milhares de anos, mas depois da Revolução Industrial ela parece ser mais prevalente entre nós porque o ser urbano pode procrastinar muito mais que o ser agrícola, aquele que nunca pode se dar ao luxo de ignorar um pedido da poderosa mãe natureza. Os números indicam que o ato de procrastinar aumentou mais ainda nas últimas décadas e muito provavelmente porque era muito mais fácil assistir televisão que resolver um problema aversivo e agora é muito mais fácil ficar na Internet. As pesquisas indicam que meninos tendem a procrastinar um pouco mais que meninas, talvez por conta de serem mais impulsivos – e os mais impulsivos em geral procrastinam mais. O índice de procrastinação na universidade é assustador para ambos os sexos e gira em torno de 80% a 95%, ou seja, quase todo universitário procrastina – e muito! 75% assume ter problemas com o ato de procrastinar. Qual o problema? Ao contrario do que muitos acreditam, o ato de procrastinar gera resultados muito piores – quase sempre! Mas as pessoas preferem recordar aquela 1 vez em 100 que a procrastinação além de não afetar talvez até tenha ajudado na performance. Acreditar que tudo bem procrastinar é uma falácia que gera mais estresse, mais ansiedade, e mais depressão. Na vida adulta profissional quase todo mundo procrastina, mas 20% da procrastinação está associada a resultados péssimos e prejuízos horrendos que poderiam ser evitados. Poderosos também procrastinam e suas decisões tardias geram o prejuízo de milhões e bilhões de dólares, euros, reais, etc. em empresas e governos. Pense nas políticas de saúde pública? Ao que tudo indica, assim como nossa percepção de tempo futuro é muito ruim, ou seja, quanto mais longe está no futuro um evento, pior é o nosso cálculo de tempo, quanto mais longe uma obrigação, mais ela fica para depois. Um exemplo: começar a poupar para se preparar para a aposentadoria. O que exatamente nos faz procrastinar? Tarefas aversivas. Quanto mais aversiva, mais procrastinamos. Se a tarefa é prazeirosa, não existe procrastinação. Essa é a teoria da motivação temporal: tarefas aversivas não são motivadoras e quanto mais no futuro mais deixamos para depois. E como enfrentar o monstro da procrastinação? Primeiro passo: meditar para reduzir a ansiedade e aumentar a concentração. Meditadores em geral procrastinam menos. Segundo passo: ver a procrastinação como uma guerra e assim organizar essa guerra em pequenas batalhas. E como não somos de ferro devemos escolher boas recompensas para cada pequena batalha vencida na guerra contra a procrastinação.

Esse é um resumo dos estudos da neurociência sobre a procrastinação adaptados da revisão “The nature of procrastination: A meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure” escrita por Piers Steel na Psychological Bulletin, 133(1), 65-94 (2007) e do recente artigo “Procrastination, Distress and Life Satisfaction across the Age Range – A German Representative Community Study” escrito por Manfred E Beutel e colaboradores e editado por Ulrich S Tran no PlosOne, 11(2), e0148054 (2016).

O poder do ficção na sociedade: sobre realidades objetiva e subjetiva!

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Perceptual Constancy and Audrey Heller’s Photography

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Perceptual constancy is an important aspect of our interaction with the world. The size constancy is the easiest one to understand. For example, two telephone poles look the same size when the first is viewed from 100 meters and when the second is viewed from 1 meter, even though the visual angle is very different. A person who appears to be 6 feet tall when he is nearby also appears to be 6 feet tall when he is standing across the room. Now, think of a penny… and you will understand the shape constancy in which the penny looks round both when viewed head on and when viewed from an acute angle. The color constancy is a little more difficult to grasp… think of the color of your car, for example… if you don’t have one, think of the one you are always taking a ride… you always perceive the color of the car as uniform, even under different light sources (sunlight, artificial light, shade). These are few examples of perceptual constancy that are essential to make our lives more stable, letting us freer to worry about other types of non-constancies (Goldstein, 2011; Cohen, forthcoming).

Here are some photos by Audrey Heller that plays with the phenomenon of size constancy:

[A Lenda dos Muitos Brancos dos Inuits – Esquimós]

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As pessoas em geral adoram aumentar os fatos num telefone sem fio – sem fim, e foi assim que começou a lenda de que os esquimós são capazes de perceber e/ou nomear muito mais brancos ou tipos de neve que a gente. Mesmo que a lenda já tenha sido destruída há décadas, algumas pessoas ainda acreditam!

A antropóloga Laura Martin passou um bom tempo na década de 1980 tentando desfazer a lenda sobre os esquimós (Inuits) e, após anos de luta, ela conseguiu publicar “Eskimos Words for Snow” (Martin, 1986). Este artigo deveria ter sido suficiente para a lenda sair de nossas vidas, mas não, e mais tarde Martin chegou a citar o número de termos do vocabulário esquimó para neve: “nove” em uma enciclopédia (Adams 1984), “cem” no editorial do New York Times (9 de fevereiro de 1984), e “200” em um programa sobre a previsão de tempo em um canal de TV em Cleveland (Pullum, 1989).

Todo mundo sabe que decoradores têm nomes diferentes para diferentes gradações de bege, e cabeleireiros têm nomes diferentes para diferentes gradações de loiro, marrom e preto – nada mais justo. Mas de acordo com o linguista Geoffrey K. Pullum – que trabalhou muito duro para destruir a lenda dos esquimós em The Great Eskimo Vocabulary Hoax, eles não são tão interessados em neve quanto reza a lenda. Para eles, a neve é algo sempre presente assim como a areia na praia. E até mesmo os loucos por praia tem apenas uma palavra para a areia.

Em 1911, o lingüista Franz Boas comparou os termos em inglês para água com os termos dos esquimós para a neve, afirmando que no vocabulário dos Inuits encontram-se 4 categorias de neve. Recentemente, em 2003, Larry Kaplan afirmou um pouco mais em “Inuit Snow Terms“. Mas para Pullum e Martin, temos que estar cientes de que o Dicionário da Língua da Gronelândia Ocidental Eskimo (Schultz-Lorentzen, 1927) apresenta apenas duas raízes possivelmente relevantes para a tipos de neve no vocabulário esquimó: qanik para neve no ar (floco de neve), e aput – para neve no chão. Todos os outros nomes são derivados. Isso é tudo.

Resumindo: a percepção em geral e, mais ainda a percepção de cores dos esquimós, é tal e qual a nossa. O vocabulário é um pouco diferente, mas muito longe de possuir dezenas e, muito menos, centenas de termos para descrever os diversos estados da neve.

The Great Eskimo Vocabulary Hoax

The Great Eskimo Vocabulary Hoax

Querer é Poder… do Egoísmo do Gene a Transcendência do ser Humano

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O ser humano é composto por um amontoado de genes. Esses genes são os responsáveis pelo homem apreciar tanto o próprio bem-estar e sofrer tanto com a própria dor. Eles também são responsáveis pela ajuda mútua entre parentes e quanto mais próximo o parentesco, maiores as chances de ajudar esse parente e, por isso, uma mãe está sempre disposta a se sacrificar mais pelo filho que pelo sobrinho, mais pelo sobrinho que pelo filho da vizinha. E assim por diante. O que está por trás disso tudo é o gene egoísta. Ele não pensa, apenas faz o que precisa ser feito para aumentar suas chances de ser replicado. O gene egoísta é um replicador. E um replicador quase imortal por que dura milhões de anos. Quem é mortal e dura poucos anos é o homem. É por causa desse gene que os homens brigam tanto e pouco fazem para ajudar um estranho, mesmo que muito necessitado. Mas o gene egoísta não tem controle sobre tudo e, provavelmente, o homem é o único animal desse planeta que tem consciência de ser fruto do gene egoísta e a capacidade de transcender o egoísmo desse gene. Somente o homem pode mudar as regras desse jogo por um Ser verdadeiramente Humano.

Campanha da United Colors Benetton

Pare por alguns segundos e busque dentro da sua memória algum trato rompido ou favor negado por um amigo. Pare por mais alguns segundos e tente lembrar qual foi a desculpa que você ouviu. [Se não estiver lembrando, faça o exercício inverso e pense em um favor que negou ou um trato que rompeu com um amigo…] Na maior parte das vezes, a desculpa dada para negar um favor e, mais ainda, para romper um trato, está diretamente relacionada a alguma necessidade própria ou de algum membro da família e, quando isso acontece, grandes são as chances de você se sentir com raiva ou, no mínimo, tratado com negligência.

Em um favor negado ou um trato rompido, normalmente a pessoa beneficiada é um parente e o prejudicado é um não-parente. O que está por trás dessa atitude é o gene egoísta, aquele que determina uma escala de prioridades de acordo com a porcentagem de genes que se tem em comum com os parentes. Quanto mais genes em comum, maior a probabilidade de beneficiar esse parente em prejuízo de um menos parente e, maior ainda, em prejuízo de um não-parente. No cálculo que define o beneficiado, ganha aquele que tem maior porcentagem de genes em comum. A lógica: beneficiar aquele que tem mais genes em comum aumentam as chances de preservar seu próprio gene.

Charles R. Darwin (1809-1882)

Esse é um resumo simplificado de como funciona o gene egoísta, unidade central da teoria da evolução mais aceita pelos cientistas da atualidade, que tem sua raiz fincada na associação entre a seleção natural de Charles R. Darwin (1809-1882) e a genética de Gregor J. Mendel (1822-1882) e, foi sintetizada aproximadamente meio século após a morte de ambos. Desde então, vem sendo exaustivamente pesquisada em quase todos os ramos da ciência. O gene egoísta mostra que os animais não foram adaptados para preservar sua espécie, mas sim preservar os genes. Como Darwin já havia notado, a seleção natural favorece os genes que replicam melhor, os egoístas. Exemplos do gene egoísta em ação são encontrados tanto no reino vegetal quanto no animal e, com muito pouco esforço, você pode identificá-los na sociedade dos homens. De um simples trato rompido ao extremo de matar um enteado, são inúmeros os exemplos do gene egoísta falando mais alto no Homo sapiens sapiens.

Gregor J. Mendel (1822-1882)

O termo gene egoísta foi cunhado por Richard Dawkins e, apesar de algumas críticas, continua sendo muito utilizado na discussão sobre a evolução das espécies. Alguns autores preferem denominá-lo gene imortal ou elemento genético egoísta. De qualquer forma, vale notar que todos os autores são unânimes em afirmar que, apesar de denominar o gene como egoísta, ele não tem consciência e, portanto, apenas faz o que precisa ser feito para que seu gene seja replicado. Todos autores, incluindo o desse artigo, quando dizem que o gene é egoísta ou, por exemplo, o criador de algum mecanismo, não implica motivação ou conotação moral por parte do gene.

O gene egoísta é aquele que precisa replicar e quanto mais replicadores maiores as chances de êxito. Mas para entender o que é o gene egoísta, é preciso diferenciar o organismo do gene.  No caso do ser humano, é preciso distinguir a pessoa dos genes que a compõem. Veja: João e Maria tiveram um filho, o Joãozinho que, por sua vez, não é um clone do pai, mas sim um pacote de genes composto por metade de genes provenientes do pai e a outra metade de genes da mãe. Portanto, o que Joãozinho tem em comum com João e Maria são genes.

Nesse pacote de genes, Joãozinho tem uma em duas chances de ter genes em comum tanto com o pai quanto com a mãe. João e Maria não queriam que Joãozinho fosse filho único e, como não moram na China, puderam aumentar família e tiveram uma menina. Joãozinho agora tem uma irmã, a Mariazinha, e tem novamente uma em duas chances de ter genes em comum com a irmã porque são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Joãozinho e Mariazinha cresceram. Ele teve uma filha e ela teve um filho. Portanto, Joãozinho tem uma em quatro chances de ter genes em comum com seu sobrinho assim como Mariazinha também tem uma em quatro chances de ter genes em comum com sua sobrinha. Os sobrinhos, portanto, são primos e têm uma em oito chances de terem genes em comum entre si. Essa probabilidade na porcentagem de genes em comum cria uma escala de parentesco conforme a quantidade de genes em comum. Na genética desse parentesco não há nenhuma novidade, nenhum mistério e, difícil é encontrar alguém que não tenha esse conhecimento.

O que também não é novidade, mas muitos ainda não sabem, é que a escala de parentesco está diretamente relacionada à escala na predisposição em cooperar. Quanto mais genes em comum, maiores as chances de cooperação. Quanto menos genes em comum, menores as chances de cooperação. Mora nessa escala de motivação o maior investimento do gene egoísta e, poucos são os biólogos que não aceitam essa teoria: Os genes são egoístas por que precisam garantir a própria replicação. Os corpos não se replicam e, portanto, não deveriam ser egoístas. Dessa forma, os genes egoístas precisaram criar conexões neurais de prazer e sofrimento para regular as ações do animal e, assim, aumentar suas chances de replicação. É por isso que os animais apreciam tanto o próprio bem-estar e sofrem horrores com a própria dor. No quesito bem-estar, o homem nunca se cansa do auto-benefício: comprar, viajar ou qualquer outro consumo que não tenha fim. “Never is enough” é a melhor expressão para tal. Portanto, os genes egoístas precisaram criar circuitos nos quais o homem pode sentir bem-estar com o outro e, quanto mais genes em comum se tem com esse outro, maior o bem-estar e maiores as chances de cooperação entre eles e, então, as chances de replicação desse gene egoísta. Vale lembrar que o gene egoísta não tem consciência.

Seleção natural não é sinônimo de preservação da espécie e pensar dessa forma é um equívoco. Darwin já sabia disso, mas foi e ainda é freqüentemente mal interpretado. Se o objetivo-mor fosse a espécie, o parentesco seria irrelevante. E o que vemos no reino animal, inclusive na sociedade dos homens, é justamente o contrário. Na prática, é fácil verificar que toda mãe está sempre mais disposta a se sacrificar pelos filhos que pelos sobrinhos, assim como está mais disposta a ajudar seus sobrinhos que os sobrinhos do seu marido e, muito menos, os sobrinhos da vizinha. E assim por diante.

Cena do filme "A Marcha dos Pinguins"

A verdade não é agradável e os animais não se importam com o que acontece com a espécie ou o ecossistema. No filme A Marcha dos Pingüins, o pingüim cujo filho não vingou, sofre pela sua perda ao mesmo tempo que não se importa nem um pouco com o filhote ao lado que está sendo dragado por um leão marinho. Esse mesmo pingüim tem medo de mergulhar em busca de alimento por que não tem como saber se ali existe um leão marinho que esteja pronto para atacá-lo. O que ele faz? Ele espera que algum outro pingüim com muito mais fome se arrisque e mergulhe ou, até mesmo, tenta empurrar os pingüins vizinhos com o intuito de verificar se aquele local está ou não livre de leões marinhos e, portanto, seguro para buscar o seu alimento.

Os pingüins tanto quanto os homens, não estão preocupados com sua espécie ou com o ecossistema. Pense nos homens, quantas pessoas você conhece que deixaram de fazer uma viagem internacional em suas férias porque preferiram doar a mesma quantia para retirar uma família da miséria ou qualquer outro sacrifício para beneficiar um desconhecido? Quantos casais você conhece que preferiram ser pais adotivos a serem pais biológicos? Em contra partida, é muito comum encontrar pessoas que não gostem de seu enteados ou, pior, enteados que se viram obrigados a sair de casa por serem vítimas de maus tratos do padrasto ou da madrasta. Em geral, os animais comportam-se de maneira egoísta em função de como seus circuitos emocionais foram desenhados. Circuitos esses que foram projetados pelos genes egoístas.

Como dito anteriormente, é preciso separar o egoísmo do gene do egoísmo da pessoa, mas como os genes egoístas construíram circuitos nos quais as pessoas tem mais prazer quando agem de acordo com o desejo do gene egoísta, elas acabam sendo também egoístas. Volte no exercício apresentado no início desse artigo. A maior parte das pessoas, quando em situações onde precisam escolher se vão beneficiar um parente ou um não-parente, são governadas por seus circuitos neurais que, em geral, fazem com que elas beneficiem o parente por que o bem-estar que sentem cooperando com o parente é muito maior comparado ao bem-estar que sentem cooperando com o não-parente. Para seu amigo, beneficiar a você em detrimento do parente teria um custo muito mais alto que beneficiar o parente em seu detrimento. E a escolha, muitas vezes automática e inconsciente, é baseada na relação custo-benefício. Agora, imagine uma mudança nos personagens desse cenário e o dilema do seu amigo não está entre beneficiar ao parente ou a você, mas sim entre beneficiar o parente ou o chefe. Se seu amigo beneficiar parente, ele corre o risco de ser retaliado pelo chefe. Se seu amigo beneficiar o chefe, ele corre o risco de ser retaliado pela família. Ele provavelmente optará por beneficiar o chefe e as chances de não ser retaliado pela família são enormes. Nesse dilema, quase todos os seres humanos beneficiariam o chefe. Por que? Se optar pelo parente, coloca em risco seu próprio bem-estar. E ele tem mais genes em comum consigo mesmo do que tem em comum com o parente.

Ninguém fica tão triste com a dor do vizinho como fica com a própria dor. Ninguém fica tão feliz com a felicidade do vizinho como fica com a própria felicidade. Mas se esse vizinho for um parente, quanto mais genes em comum, maiores as chances de existir empatia e, portanto, maiores as chances de sentir a tristeza ou a felicidade desse parente com mais intensidade. E essa é a essência do amor, sentir prazer com o prazer do outro e sentir dor com a dor do outro. Hoje, conhecendo o gene egoísta, é possível entender que a cooperação entre parentes ou entre pessoas com descendentes em comum equivale a genes ajudando a si mesmos, denominado seleção por parentesco. Então, se o amor que existe entre aqueles que tem genes em comum ou descendentes em comum é mero reflexo da seleção por parentesco, surge a pergunta: o amor nada mais é que um circuito neural criado para trabalhar em favor do seu criador, o gene egoísta? Ao que tudo indica: Sim!

Campanha da United Colors of Benetton

Mas a cooperação entre pessoas com genes em comum, que corresponde ao gene ajudando a si mesmo, não é o único tipo de cooperação no reino animal e, principalmente, na sociedade dos homens. Cooperação entre pessoas sem parentesco também existe e a amizade é um exemplo. Quanto mais você coopera com seu amigo, maiores são suas chances de que ele coopere com você. E assim fica estabelecida a cooperação recíproca. Sob o ponto-de-vista do gene egoísta, pode ser bom que você tenha a capacidade de cooperar com um não-parente. Na prática, se o quanto você coopera com o seu amigo equivale ao quanto seu amigo coopera com você, vocês estão quites. Mas na matemática da amizade, ninguém quer ser abusado e, para isso, você precisa tomar cuidado com os trapaceiros. O trapaceiro é aquele que quer vender sua cooperação por mais do que realmente vale. Dessa forma, ele será mais beneficiado do que aquele com quem ele coopera. Um trapaceiro muito esperto é aquele que consegue vender, sucessivamente, suas cooperações por um pouco mais do que elas realmente valem. De acordo com muitos evolucionistas, a cooperação entre não-parentes parece ter importante papel na evolução humana e, Robert Trivers, em particular, sugere que os seres humanos são máquinas que foram adaptadas para trapacear, detectar trapaceiros e evitar que sejam vistos como trapaceiros. Na prática, é fácil verificar, basta observar o comportamento de qualquer criança… Não é a toa que a sociedade dos homens tem sua economia baseada no dinheiro e, também, seja recheada de leis, regulamentos, registros, certidões, contratos, fiscais, multas, etc. Tudo para evitar que os trapaceiros tenham êxito.

Ninguém quer ser trapaceado e são impressionantes as táticas que foram desenvolvidas ao longo da evolução para se proteger de um trapaceiro. Em boa parte do reino animal, as fêmeas, ao contrário dos machos, têm muito mais certeza de terem seus genes em sua prole.  Dessa forma, machos de diversas espécies desenvolveram habilidades para garantir que não invistam em filhos de outros machos e, assim, não serem trapaceados. Um camundongo macho secreta uma substância química quando é cheirado por uma fêmea grávida para verificar se ele é mesmo o pai do bebê que ela carrega. Se ela não estiver grávida desse macho, o cheiro da substância secretada provoca aborto. Dessa forma, esse macho destrói seu potencial enteado e essa fêmea fica rendida para procriar apenas para ele. Pense na raça humana: a lista de atrocidades realizada pelo homem para controlar a fidelidade de “suas” mulheres é enorme. Por outro lado, sob o ponto-de-vista da fêmea, a maior parte delas não quer saber de machos interessados apenas na cópula e que não queiram colaborar na criação da prole. Portanto, em diversas espécies, a fêmea exige um longo namoro afim de verificar o quanto aquele macho está realmente interessado em investir na futura família. Recentemente, na sociedade moderna, foi desenvolvida mais uma técnica para detectar trapaceiros, seja homem ou mulher: o teste de paternidade.

Kate & Williams (esq.); Charles & Lady Di (dir.)

Na década de oitenta, o mundo acompanhou um conto de fadas que acabou em tragédia. O conto era uma farsa e muitos eram os trapaceiros envolvidos nela. As opiniões se dividiram e quase todos ficaram ao lado de Lady Di. De acordo com o protocolo real, Príncipe Charles, que precisava de um herdeiro para o trono inglês, não poderia se casar com Camilla e, portanto, pediu a mão de sua namorada, Diana, em casamento. Lady Di, então, descobriu que não vivia um conto de fadas e que sua contribuição para o casamento estava apenas na “nobreza” de seus genes e não fez nenhum esforço para esconder do mundo que fora trapaceada. O ser humano não gosta de trapaceiros. Lady Di foi e continua sendo admirada por milhões e milhões de pessoas em todo mundo. Recentemente, o primeiro filho do casal, Williams, repetiu o casamento de conto de fadas e a escolhida foi Kate. A família real parece ter aprendido alguma coisa e não incentivou, novamente, a realização de um casamento baseado apenas nos genes. William e Kate foram motivados a namorarem por muitos anos e evitarem, dessa forma, outro escândalo que decepcionasse, mais um vez, aos fãs da família real britânica.

Na sociedade contemporânea, principalmente urbana e virtual, encontra-se um novo tipo de trapaça. Pense naquele seu amigo que é amigo de todos. Aquele que agrada o maior número de pessoas possível e que raramente entra em conflito e, claro, dificilmente toma partido. O faz apenas quando não tem outra solução e a escolha com quem cooperar é baseada naquele que ele vê a maior probabilidade em precisar cobrar o retorno de sua cooperação no futuro. Seja consciente ou inconsciente, o objetivo dele é sempre o mesmo: auto-benefício. Esse homem calcula o custo-benefício de qualquer escolha em cooperar pensando no futuro e, sempre, visando suas chances de se beneficiar da cooperação do escolhido em curto, médio ou longo prazo. Seu lema: investir em sua rede social. Você acabou de ser apresentado a um dos mais novos produtos do gene egoísta, o trapaceiro contemporâneo. Ele é um camaleão social, veste a personalidade necessária para se adequar ao ambiente, mas você nunca saberá realmente quem ele é e muito menos o que pensa.

Moral da história: os genes não têm moral, quem têm moral são os animais e, principalmente, os homens. Os genes não têm consciência, quem tem consciência são as pessoas. Os genes são potencialmente imortais, os homens são certamente temporários. Os genes vivem por milhões e milhões e milhões de anos, as pessoas por apenas alguns poucos anos. Os genes se replicam, os homens morrem. O gene não aprende, ele apenas se replica. O homem aprende, mas leva para a cova o seu conhecimento, ou melhor, levava! Na sociedade oral, os homens viviam um eterno telefone sem fio e o conhecimento podia se perder facilmente. Mas o ser humano, diferente dos outros animais, inventou a escrita e, desde então, se vingou da morte. Com a escrita, possibilitou o registro do conhecimento adquirido. Portanto, com a morte vingada, o conhecimento construído por Darwin e Mendel estão eternizados e possibilitaram o desenvolvimento da teoria da evolução aqui apresentada. Darwin teve descendentes e alguns também contribuíram para a desenvolvimento dessa teoria. Mendel, por sua vez, não teve filhos. E quem se importa? Ninguém. Seus genes foram embora, mas seu conhecimento permaneceu presente. Quando seus estudos foram redescobertos, muitos anos após a sua morte, eles possibilitaram o desenvolvimento de centenas de outros estudos que levaram ao entendimento, tratamento e, muitas vezes, a cura de diversas doenças genéticas.

Foto de Mike Wells em Karamoja, Uganda, 1980

O ser humano é o único animal na Terra que pode transgredir o totalitarismo de seus genes. O gene criou o homem e somente o homem pode se virar contra o seu criador. O homem, ao se rebelar, pode transcender sua natureza egoísta e utilizar seu livre-arbítrio para re-projetar o futuro da raça humana e do planeta Terra. Querer é poder.

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