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Ficção: Poderosa Arma dos Homens

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Como já sabemos, nossos sentidos são limitados e não dão conta de interpretar a realidade. Portanto, nossa realidade é sempre parcial e, além disso, relativa. Relativa porque pensamos sempre em comparação. Não existiria a noite se não fosse o dia, a fome se não fosse a saciedade, o cheiroso se não fosse o fedido.

Se a realidade é parcial e relativa, ela é apenas um ponto de vista. Quando o ponto de vista é compartilhado unanimemente, geralmente estamos falando de uma realidade objetiva como, por exemplo, o rio, a árvore, o leão. Quando o ponto de vista é dificilmente compartilhado por todos, geralmente estamos falando de uma realidade subjetiva também conhecida por construção social, ideia, mito, ficção.

Quando uma realidade subjetiva é compartilhada por quase todo mundo, ela se parece com uma realidade objetiva. Dois bons exemplos: Deus e dinheiro. Ambos não são realidades objetivas mas sim ideias consideradas reais pela maioria esmagadora de nós humanos. Quanto mais gente acreditar numa realidade subjetiva, menos ela se parece com uma ficção e mais ela se parece com a realidade objetiva.

Somos um animal social e as realidade subjetivas são extremamente necessárias para nossa organização em sociedade. Elas são o fruto da nossa necessidade aliada a nossa imaginação. Nenhum outro animal no planeta tem a imaginação que nós temos:

É difícil respeitar o direito alheio. Criamos a Lei.

A vida nem sempre parece ter sentido. Criamos Deus.

É difícil amar ao próximo como a si mesmo. Criamos a Religião.

A vida é muito curta. Criamos a Vida Eterna (e a Reencarnação).

É difícil ter apenas um parceiro. Criamos o Casamento.

Mitos partilhados facilitam a cooperação. Dois crentes que nunca se viram podem atravessar um período de sofrimento lado a lado com fé na vontade de Deus. Dois evangélicos que nunca se viram podem juntos protestar contra o aborto ou o casamento gay. Dois norte-americanos que nunca se viram podem unir forças na guerra em nome de sua nação. Dois funcionários de uma mesma corporação que não se conhecem são capazes de trabalhar por horas ou meses com a mesma finalidade.

Vivemos uma realidade dual. Por um lado a realidade objetiva, uma fonte esgotável. Por outro lado a realidade subjetiva, uma fonte inesgotável. Note que nossas realidades subjetivas são hoje mais poderosas que as realidade objetivas e até mesmo a sobrevivência de rios, árvores e leões dependem da graça concedida por deuses, nações, corporações, e o dinheiro.

 

Essa é uma resenha reflexão sobre o papel da ficção em nossa sociedade discutido no capítulo A Árvore do Conhecimento do livro Sapiens escrito por Yuval Noah Harari.

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Nós Sapiens e a Extinção de Todos outros Homos

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Reconstrução especulativa do Homo neanderthalensis. Fonte: Sapiens escrito por Yuval Noah Harari.

 

Sabemos que nós sapiens co-habitamos a Terra por um bom tempo com outros Homos, entre eles os neandertais, os erectus, os desinovanos. Duas teorias tentam explicar a extinção de todos Homos que não eram sapiens, sendo que o último (florensis) foi extinto há 12 mil anos. Na teoria da miscigenação, os sapiens foram se deslocando da África para outras regiões e se misturando. Assim, europeus são uma mistura com neandertais e chineses uma mistura com erectus enquanto os australianos uma mistura com os desinovanos. Já na teoria da substituição, diferentes Homos não somente não se misturavam como também se repeliam. A teoria da miscigenação tem consequências políticas e sociais gravíssimas visto que o racismo pode ser entendido como mera conseqüência de um abismo genético gerado pelas diferentes misturas. Em contra partida, a teoria da substituição parece mais provável visto que a intolerância é uma característica marcante do sapiens e nossos ancestrais podem ter no mínimo dificultado imensamente a sobrevivência de todos os nossos primos humanos. Ao que tudo indica nos misturamos mas muito pouco visto que, por exemplo, aborígenes australianos possuem 6% de DNA denisovano e populações do oriente médio possuem de 1% a 4% de DNA de neandertal; como fomos capazes de extinguir a maior parte dos animais nos últimos 200 anos, não é difícil imaginar que fomos capazes de destruir algumas espécies humanas. No entanto, ainda não podemos afirmar com certeza absoluta que fomos nós os responsáveis pela extinção de todos nossos primos. De qualquer forma, seja pela miscigenação ou pela substituição, somos extremamente intolerantes quando não nos reconhecemos no próximo. 

Reflexão retirada do livro Sapiens escrito por Yuval Noah Harari.

Evolução e Canal de Parto: Conta mais cara para as Mulheres

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Somos o único animal ereto do planeta. Deixando de ser quadrúpedes, não mais precisávamos das mãos para correr e assim elas ficaram liberadas para outros afazeres como criar e utilizar ferramentas sofisticadas. Ganhamos também uma visão mais ampla e passamos a melhor mapear nossas savanas e nossos predadores. Esses ganhos geraram um cérebro maior e mais capacitado a pensar estratégias de sobrevivência. Mas algumas desvantagens nos acompanharam. Carregar um cérebro pesado trouxe dor nas costas e rigidez no pescoço e as mulheres, como sempre, pagaram mais caro essa conta. O caminhar ereto reduziu a largura do quadril assim como do canal do parto e o ato de parir passou a ser um medo constante na vida das mulheres, sem mencionar que os bebês começaram a ter cérebros cada vez maiores. Essas condições favoreceram a seleção natural de mulheres que davam a luz a bebês prematuros garantindo a sobrevivência de ambos. Vale ressaltar que o que significa termo hoje era prematuro para nossos ancestrais. De fato, nossos bebês são muito prematuros quando comparados a outros mamíferos. Em contra partida, a dependência gerada pela prematuridade é justamente o que molda nossa extraordinária habilidade social. Enquanto um gato sai em busca de alimentos após poucas semanas de vida, um bebê requer sustento e proteção por anos a fio, mas é justamente por isso que pode ser melhor educado e preparado para a convivência em sociedade. 

Trecho inspirado pelo capítulo Um Animal Insignificante do livro Sapiens escrito por Yuval Noah Harari.